Olho-te, mas não te vejo!
«Certas noites têm-se tornado cada vez mais frequentes. É quando os olhares se cruzam e a conversa se tece no silêncio, dentro do olhar, onde se misturam as nossas viagens desencontradas até ao regresso último a esta praia deserta, exilada do mundo. Fecho os olhos e tenho as mãos sobre o teu pescoço. Depois sorris vagamente, estavas a falar de uma música qualquer de que eu já não me lembro, em frases que percebo que não ouvi. Não tenho onde pousar o olha nesses momentos, e imagino-me então frequentemente do lado de fora da escotilha, desenhando pegadas na areia, espreitando a noite.
Parece sempre que nos vemos pela primeira vez, deixamos que a acidez dessas conversas morra interminada como a rebentação das ondas no fim da maré. O negro explode lá fora, e perco o receio de te falar das paragens sombrias e dos túneis desérticos que visitei. Trago postais ilustrados assinados com um sorriso, e tu seguras-me na mão como quem se certifica que regressei inteira.
Viramo-nos do avesso e encontramo-nos dentro um do outro. Não há pontes para atravessar, não há paisagem que possa contemplar. Temos um porto de abrigo sob o cume da tempestade, onde vemos estalar as frestas do Universo. Tudo o que te peço nesses momentos é um reflexo, um entendimento, um brilho qualquer que me diga que o que trago não é só para mim. Se fecho os olhos vejo-te sorrir na iminência dessa brilho. Enquanto me pedes que não cinja os meus círculos de escuridão, sinto-me renascer perto de ti. Une-nos o silêncio, nos momentos em que ambos, por razões tão díspares como a cor dos nossos olhos, o procuramos, e encontramo-nos na solidão. Talvez por isso o silêncio se tornou efígie da perfeição, e não são precisas palavras para que leias na minha pele o ávido desejo de um beijo teu.»
