quinta-feira, Setembro 30, 2004

Olho-te, mas não te vejo!

«Certas noites têm-se tornado cada vez mais frequentes. É quando os olhares se cruzam e a conversa se tece no silêncio, dentro do olhar, onde se misturam as nossas viagens desencontradas até ao regresso último a esta praia deserta, exilada do mundo. Fecho os olhos e tenho as mãos sobre o teu pescoço. Depois sorris vagamente, estavas a falar de uma música qualquer de que eu já não me lembro, em frases que percebo que não ouvi. Não tenho onde pousar o olha nesses momentos, e imagino-me então frequentemente do lado de fora da escotilha, desenhando pegadas na areia, espreitando a noite.

Parece sempre que nos vemos pela primeira vez, deixamos que a acidez dessas conversas morra interminada como a rebentação das ondas no fim da maré. O negro explode lá fora, e perco o receio de te falar das paragens sombrias e dos túneis desérticos que visitei. Trago postais ilustrados assinados com um sorriso, e tu seguras-me na mão como quem se certifica que regressei inteira.

Viramo-nos do avesso e encontramo-nos dentro um do outro. Não há pontes para atravessar, não há paisagem que possa contemplar. Temos um porto de abrigo sob o cume da tempestade, onde vemos estalar as frestas do Universo. Tudo o que te peço nesses momentos é um reflexo, um entendimento, um brilho qualquer que me diga que o que trago não é só para mim. Se fecho os olhos vejo-te sorrir na iminência dessa brilho. Enquanto me pedes que não cinja os meus círculos de escuridão, sinto-me renascer perto de ti. Une-nos o silêncio, nos momentos em que ambos, por razões tão díspares como a cor dos nossos olhos, o procuramos, e encontramo-nos na solidão. Talvez por isso o silêncio se tornou efígie da perfeição, e não são precisas palavras para que leias na minha pele o ávido desejo de um beijo teu.»

quarta-feira, Setembro 22, 2004

Cântico Salomão- Cap.I

" Beije-me ele com os beijos da sua boca porque as tuas expressões de afeto são melhores do que o vinho. Teus oleos são bons em fragancia. teu nome é como um óleo que se despeja. Por isso é que te amaram as próprias donzelas. Puxa-me contigo; corramos...Conta-me ó tu a quem a minha alma tem amado, onde pastoreias..."

"Se tu mesma não sabes ó mis bela entre as mulheres... Lindas são as tuas faces entre as tranças de cabelo, teu pescoço num colar de contas..."

"Como bolsa de mirra é para mim o meu querido; passará a noite entre os meus peitos. Como cacho de hena é para mim o meu querido..."

"Eis que és bela companheira minha! Eis que és bela! Teus olhos são os das pombas."

"Eis que és belo, meu querido, também agradavel. Também o nosso divã é de folhagem. As vigas da nossa grandiosa casa são cedros, nossos caíbros são juníperos..."

[ Lindo este excerto do cap. I do Cântico de Salomão! Vale a pena ler todos os capitulos... pois é composto por belos momentos de amor e demostrações de afeto entre uma humilde jovem e um pastor. ]

segunda-feira, Setembro 20, 2004

Transparências


Eu sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, irriquieta na minha comodidade. Pinto a realidade com alguns sonhos, enxerto sonhos em cenas reais. Choro lágrimas de rir e quando choro para valer não derramo uma lágrima.
Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz. Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando recuo não volto. Mas não me leves a sério, sei que nada é definitivo. Nem eu ou o que penso que eu sou. Nem nós ou que a gente pensa que tem.
Prefiro as noites porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol.
Quando é impossível, gozo. Quando é permitido, duvido.
Não bebo porque só me aceito sóbria. Não tomo café da manhã, não almoço, vivo de dieta e penso mais do que falo. E falo muito, geralmente no jantar. Nem sempre o que tu queres saber. Eu sei.
Há uma mulher em algum lugar em mim que usa caros perfumes, sedas importadas e brilho no olhar, quando se traveste em sedução.
Se perceberes qualquer tipo de constrangimento, não repares, eu não tenho pudores mas, não raro, sofro de timidez. E nota bem: não sou agressiva, mas defensiva. Impaciente onde tu vês ousadia. Falta de coragem onde tu pensas que é sensatez.
Mas mesmo assim, sempre surge um momento qualquer em que eu esqueço todos os conselhos e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos. E, ignorando todas as regras, todas as armadilhas desta vida urbana, desta violência cotidiana, se tu me assaltas, eu reajo.

terça-feira, Setembro 14, 2004

Fica comigo!

Corre para aqui, tomarei conta de ti até se afastar esse fado, até desistir de te procurar, até ficar exausta da cruel procura.

Corre… Corre para aqui, eu prometo ficar contigo, prometo não te deixar ir, prometo não adormecer mais até que o fado desista, até que o fado esteja distante, extinto, resignado com a falha e então nada mais prometerei, deixar-te-ei seguir o teu outro fado, nem que me persiga a mim o vil, eu fugirei, vais ver que consigo correr também!

Foge! Depressa, sem pensar, sem olhar o que te persegue, sem fitar os olhos do fado, não poderás ver daqui o que te é destinado, não vejas…

Eu vejo por ti, pudesse eu atravessar-me no caminho, tropeçar contigo e salvar-te, levar-te para longe, mostrar-te o que nunca viste, o que nunca mais verás, deslizar a minha mão pelas tuas costas e saber-te bem, sentir o teu calor, ouvir-te inspirar o ar que roubei a mim, ver no teu olhar a confiança que imagino, cheirar a extinção do meu tempo sorrindo contigo…

Fica!

sexta-feira, Setembro 10, 2004

Sonho e Amor

Sonho, a gente só se dá conta dele depois que acorda,
depois que ele acabou...
E fica aquela vontade na gente de sonhar
mais um pouquinho.


Existem pessoas que são um sonho.
Um sonho pelo qual a gente dormiria a vida inteira.
Mas o destino vem e nos acorda violentamente...
E nos leva aquele sonho tão bom...


Existem pessoas que são estrelas.
Doces, luzes que enfeitam e iluminam
as noites escuras de nossas vidas.
Mas vem o amanhecer e nos rouba
com toda a sua claridade aquela estrela tão linda.


Existem pessoas que são flores.
Belezas discretas que alegram o nosso caminho.
Mas com o tempo, as flores murcham,
e nos enchem de saudade de sua cor e de seu perfume.


Existem, finalmente, as pessoas que são simplesmente amor.
Um amor doce como o mel de uma flor...
que desabrochou numa estrela
e que veio até nós num lindo sonho!
E ainda bem que são amor,
porque flores, estrelas ou sonhos,
mais cedo ou mais tarde, terminam...
mas o amor...


O AMOR NÃO TERMINA NUNCA...